O Instituto Pólis é uma ONG (Organização Não Governamental) de atuação nacional e internacional. Fundado em 1987, o Pólis atua na construção de cidades justas, sustentáveis e democráticas, por meio de pesquisas, assessoria e formação que resultem em mais políticas públicas e no avanço do desenvolvimento local.

Para Europa, Brasil é principal referência em economia solidária

Resíduos Sólidos, Inclusão e Sustentabilidade
9 de maio de 2017

Especialista do Pólis participou de uma série de eventos na Romênia e Áustria para apresentar experiências brasileiras e conhecer iniciativas locais

O Brasil é referência mundial quando o assunto é economia solidária. O termo foi cunhado na década de 1980 pelo economista Paul Singer, quando, em contexto de crise e desemprego, a sociedade passa a recorrer a práticas cooperativas para aumentar a renda. Singer passa então a estudar as diversas soluções criadas pela sociedade para efetivar um sistema econômico alternativo pautado pela igualdade de direitos.

Até hoje, já foram identificadas mais de 150 mil iniciativas de economia solidária no Brasil, dentre empresas falidas recuperadas pelos trabalhadores, cooperativas – dentre as quais se encontra as de catadores de materiais recicláveis -, agricultores familiares, artesãos, ecovilas, redes de trocas, microcrédito, dentre outras. Estima-se que hoje essas experiências já totalizam 3% do PIB brasileiro.

Em países da Europa, a crise econômica da última década e o aumento das imigrações causou grandes efeitos no mercado de trabalho, aumentando bastante o índice de desemprego. É nesse contexto que aconteceu, entre os dias 1º e 16 de fevereiro, a  Tour Economia Social e Solidária, no âmbito do projeto SUSY – Sustainable and Solidarity Economy (Economia Social e Solidária – SSEDAS, em português). A Tour, que dessa vez passou por cidades da Áustria e Romênia, teve como principal objetivo a troca de experiências em economia solidária entre o Brasil e os países anfitriões. Elisabeth Grimberg, coordenadora da área de Resíduos Sólidos do Instituto Pólis, foi convidada a participar para apresentar a experiência dos movimentos de catadores de materiais recicláveis no Brasil e conhecer algumas experiências em economia solidária em curso por lá. Junto dela estava Gilberto Ohta, da Cooperativa Agropecuária de Produtos Sustentáveis do Guapiruvu (Cooperagua), do Vale do Ribeira, uma iniciativa que conseguiu vender alimentos para escolas públicas da cidade de São Paulo por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Iniciativa emprega jovens que não se inserem no mercado de trabalho para recondicionar eletrodomésticos

Iniciativa emprega jovens que não se inserem no mercado de trabalho para recondicionar eletrodomésticos

Para Grimberg, a Europa viu nas experiências brasileiras uma gestação fértil de experiências que trazem alternativas para a exclusão socioeconômica causada pelo capitalismo. No Brasil, a partir de políticas públicas de fomento à produção e inserção no mercado formal, legitimaram-se as iniciativas de economia solidária, que, ao conviverem com outros modelos de empreendimentos, trouxeram sustentabilidade dentro de uma economia dominantemente desigual.

Na Romênia, o projeto SUSY é coordenado pela ONG Terra Mileniul III, que conduziu os trabalhos de visitas e organização dos debates. Nesse país, Elisabeth identificou dois modelos de iniciativas. O primeiro configura uma iniciativa solidária no sentido mais amplo da palavra. Um exemplo é o projeto da Fundação Concórdia, em Ploiești, interior da Romênia. A iniciativa, que segundo a especialista foi muito bem estruturada, acolhe crianças em situação de vulnerabilidade. Lá elas moram em casas que elas mesmas aprendem a cuidar, e se responsabilizam com outros afazeres, como o cultivo das hortas e outras atividades que as orientam a cuidar da própria vida por meio de experiências comunitárias e coletivas. Assim, aprendem a ser cidadãos e a verem-se como tal, e não como pessoas tuteladas. Trata-se de um projeto de perfil solidário que depende de instituições financiadoras. Já o Centro Urbano para Boas Iniciativas – CUIB, em Iaşi, é solidário em seu modelo de gestão. O Centro compra alimentos de agricultores rurais, pratica um cardápio vegetariano e deixa claro aos clientes toda a filosofia por trás deste modelo, ou seja, aposta em passar seu recado na prática.

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Estufas de produção cooperativista em Linz/Áustria

Na Áustria, o projeto SUSY é coordenado pela ONG Südwind, organização que se responsabilizou pela organização da agenda de debates, visitas técnicas e entrevistas para a mídia. Elisabeth participou do Congresso Good Life for All, na Universidade de Viena de Economia e Negócios, que reuniu professores, estudantes, cooperativistas e empreendedores que desenvolvem projetos que desafiam a economia capitalista ou que estão interessadas em conhecer e debater alternativas. O tema da economia solidária ganha mais espaço num contexto em que as questões sociais ficam mais afloradas, já que a Áustria é um dos países da Europa que recebem considerável número de imigrantes. A discussão de uma economia alternativa surge como contra-narrativa às políticas conservadoras, que buscam soluções pautadas em políticas de austeridade e fechamento de fronteiras. Grimberg visitou espaços onde a economia solidária está mais consolidada nesse sentido. Um bom exemplo foi o próprio hotel em que ficou hospedada em Viena: com funcionários majoritariamente imigrantes, resultado de uma parceria com a organização social Cáritas, que promove a inserção das pessoas em situação de refúgio no mercado de trabalho. O estabelecimento busca a simplicidade para viabilizar sua operação. Desta forma reutilizou antigos bagageiros de trens para cabideiros nos quartos, não possui TV, telefone ou frigobar nos quartos.  Já em Linz, cidade do interior da Áustria, Elisabeth conheceu uma loja de distribuição de produtos da agricultura familiar liderada por jovens, com gestão horizontal que oferece produtos segundo sua sazonalidade, entre outras iniciativas de economia solidária.

Debate em Bucareste

Debate em Bucareste

A Tour teve em sua programação atividades de naturezas distintas. Foram reuniões com institutos de fomento à economia solidária, visitas técnicas a iniciativas locais para reflexão conjunta, seminários para apresentação da experiência do Brasil e debates com sindicalistas, movimentos sociais, funcionários públicos, estudantes e público em geral. Na Romênia, passou pelas cidades de Bucareste e, na zona rural, Slobozia, Ploiești, Comana e Iaşi, num total de nove visitas técnicas e três seminários. A viagem pela Áustria envolveu igualmente nove visitas a experiências de práticas solidárias e a realização de quatro seminários, passando por Viena, Wels e Linz. Foram feitas um total de dez entrevistas entre rádios, TV, jornais e revistas, especialmente na Áustria.

Segundo Grimberg, o perfil das iniciativas que viu é inovador. Elas apresentam dinâmicas de desenvolvimento construídas horizontalmente e foram implementadas com características de cooperação e divisão dos recursos econômicos, o que afirma uma outra lógica de organização da produção, seja de bens ou serviços. De acordo com a especialista, essa lógica traz uma outra perspectiva de economia, afirmando que “é possível a vida em sociedade de uma forma que não seja a do modelo de desenvolvimento capitalista”.

A recomendação que a especialista do Pólis deixa para os países europeus é de reunir subsídios para entender melhor a realidade daquela região: sistematizar as experiências, criar metodologias e realizar uma reflexão coletiva e articulada entre os atores de diversos países, especialmente os envolvidos no projeto SUSY, sobre os novos paradigmas para a produção social da vida em bases solidárias, cooperativistas e de forma horizontal. A economia solidária deve ser um pleito também para políticas públicas. Já para nós, no Brasil, seguimos resistindo para que as conquistas não recuem, e que as iniciativas em economia solidária continuem se expandindo.

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