caminhos para a reciclagem de resíduos orgânicos: história de florianópolis (sc), capital lixo zero

caminhos para a reciclagem de resíduos orgânicos: história de florianópolis (sc), capital lixo zero setembro de 2025

caminhos para a reciclagem de resíduos orgânicos: história de florianópolis (sc), capital lixo zero

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Introdução

A trajetória de Florianópolis/SC na gestão dos resíduos sólidos urbanos (RSU) foi sendo construída ao longo de décadas, articulando iniciativas institucionais, comunitárias e descentralizadas. Ainda no final da década de 1980, o projeto Beija-Flor foi implantado em três locais com perfis socioeconômicos distintos com o objetivo de promover a educação ambiental e a mudança cultural em relação aos resíduos. O programa estabelecia a separação dos resíduos em três frações (secos, orgânicos compostáveis e rejeitos), a compostagem dos resíduos orgânicos e a comercialização dos recicláveis secos. A iniciativa nasceu de um trabalho colaborativo entre a Companhia Melhoramentos da Capital (Comcap), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e do Movimento Ecológico Livre (MEL), que entendiam a necessidade de transformar a maneira por meio da qual os cidadãos se relacionavam e destinavam o seu resíduo (BAGNATI; CRIVELATTI, 2015).

Dessa época em diante Florianópolis passou a incentivar e promover diferentes iniciativas que ampliassem a valorização dos resíduos recicláveis secos, orgânicos compostáveis e verdes. Em 2008 nasceu uma iniciativa que anos depois viria a mudar o cenário nacional da compostagem: a Revolução dos Baldinhos. A iniciativa, implementada na Comunidade Chico Mendes, no bairro Monte Cristo, nasceu por iniciativas de base comunitária que enfrentaram, de forma direta, os desafios da destinação inadequada de resíduos orgânicos (ANGEOLETTO et al. 2016). A revolução articulava a compostagem descentralizada, a educação ambiental e a mobilização social com as famílias da comunidade por meio da coleta de resíduos orgânicos em baldinhos – que inicialmente se dava em carrinhos de mão, mas após a doação pelo Projeto Família Casca – que desde 2005 desenvolve um modelo de gestão local dos resíduos orgânicos, com participação comunitária, no Parque do Córrego Grande – passou a realizar a coleta com carrinhos de plataforma de tração humana. Todas essas experiências pioneiras anteciparam práticas que, anos depois, seriam incorporadas em escala municipal.

A partir dessas bases, Florianópolis passou a alinhar suas práticas de gerenciamento dos resíduos com foco na valorização do RSU, por meio da priorização de soluções que promovessem a inclusão de diferentes atores sociais, a educação socioambiental contínua e a redução da destinação final dos resíduos em aterros. Essas ações combinadas possibilitaram que o município se destacasse, hoje, como referência nacional na valorização de resíduos orgânicos compostáveis.

Considerando a estratégia municipal de Florianópolis, é possível destacar que um de seus diferenciais está na adoção de múltiplas abordagens centralizadas e descentralizadas para enfrentar o desafio de valorizar a fração orgânica dos resíduos. Entre as principais ações, destacam-se:

  • Programas de compostagem doméstica
  • Compostagem educativa institucional
  • Compostagem comunitária apoiada pela Prefeitura
  • Compostagem descentralizada (privada e/ou comunitária) com remuneração pela Prefeitura
  • Compostagem centralizada com pátio público operado pela Prefeitura
  • Coleta seletiva pública de resíduos verdes (poda, gramas, folhas etc.)
  • Coleta seletiva pública de resíduos orgânicos domésticos porta a porta de forma mecanizada
  • Coleta seletiva pública de resíduos orgânicos domésticos em Pontos de Entrega Voluntária (PEVs)

O município conta com um ponto bastante estratégico para o gerenciamento dos RSU gerados diariamente: o Centro de Valorização dos Resíduos (CVR). Localizado no centro de Florianópolis, ocupando a área do antigo aterro controlado, o CVR recebe todos os resíduos coletados nas diversas regiões e, desde 2008, abriga tam- bém o pátio de compostagem municipal. O CVR abriga ainda o Museu do Lixo, uma iniciativa criada para documentar e preservar a história do que já foi descartado, demonstrando também as diversas possibilidades para o reaproveitamento dos resíduos. Integrado a ele, existe o Circuito do Lixo, que demonstra aos visitantes os caminhos percorridos pelos resíduos até a sua destinação adequada. Esse espaço serve como um importante recurso educativo, promovendo aprendizado e conscientização para escolas e visitantes.

Com o avanço nas práticas de gestão de resíduos orgânicos compostáveis, em articulação com iniciativas de agricultura urbana, o município desvia atualmente cerca de 30 toneladas de resíduos orgânicos dos aterros todos os dias. Esse resultado notável é fruto de um extenso planejamento e diversificação das estratégias aplicadas municipalmente, como a coleta pública municipal de restos alimentares, que implementou o sistema Seletiva Flex de Orgânicos, no qual caminhões satélites recolhem os resíduos previamente separados de bairros e condomínios. Além disso, os Pontos de Entrega Voluntária de Orgânicos (PEVs) permitem que os munícipes entreguem seus resíduos orgânicos segregados em baldinhos e bombonas espalhadas pelo bairro.

Atualmente Florianópolis se destaca como a capital brasileira que mais recicla e a única com coleta seletiva de resíduos orgânicos domésticos, consolidando-se como um modelo para o gerenciamento de resíduos orgânicos compostáveis. Seu sistema, de escalas municipais, comunitárias e domésticas, não apenas promove o desenvolvimento da gestão de resíduos do município, integrando os diferentes atores dessa missão, como também prioriza a mitigação climática, uma vez que orgânicos enviados a aterros sanitários emitem gás metano (CH4).

Desta maneira, conhecer a trajetória do município é fundamental para inspirar a implementação de novos modelos e soluções para a gestão de resíduos em todo o território brasileiro.

Equipe responsável

Autoria:
Laís Ferreira dos Santos
Victor Hugo Argentino M. de Vieira

Coordenação editorial e revisão técnica:
Victor Hugo Argentino M. de Vieira

Revisão ortográfica:
Felipe Rabello Gonçalves

Ilustrações:
Sabrina Porto

Capa e projeto gráfico:
Carla Piaggio Design

Foto de capa:
Coleta seletiva de resíduos orgânicos compostáveis em Florianópolis/SC [Crédito: Prefeitura Municipal de Florianópolis]

Editoração:
Instituto Pólis

Diretoria do Instituto Pólis:
Cássia Gomes da Silva
Henrique Botelho Frota
Rodrigo Faria G. Iacovini

Coordenador da Área de Resíduos Sólidos e Agroecologia:
Victor Hugo Argentino M. de Vieira

Equipe da Área de Resíduos Sólidos e Agroecologia:
Isadora da Silva de Melo
Laís Ferreira dos Santos
Laís Lage dos Santos
Letícia Ferreira de Queiroz