#VozesdoPolis por Felipe Moreira
“Campos Elíseos, 14hs da tarde de um dia de outono. Caminho pela Av. Rio Branco avistando ao fundo a cavalaria da Polícia Militar intimidando famílias que moram numa ocupação. Ninguém sabia, mas era dia de reintegração de posse.
Ela havia sido marcada e combinada com xs moradorxs para dali a dois dias. Mas a eficiência do Estado, quem diria, antecipou a mudança e pegou todo mundo de surpresa.
Chego à porta da ocupação e a vejo praticamente esvaziada de seus moradores. No chão do primeiro cômodo, alguns móveis, pedaços de madeira, fios e fotos que ficaram pelo caminho. Por de trás da porta a minha frente, surge uma criança com um boneco de heroi na mão.
Eu a sigo e me deparo com um corredor de paredes demolidas e um microondas no chão. A criança se agacha e abre o microondas. Coloca gravemente o boneco e diz: é hora de fazer comida, papai.
Ela ainda não sabe mas hoje ela não tem mais onde morar. A angústia nos olhos do pai revelam tal condição. Subo as escadas e chego ao andar de cima. Mais escombros e mais uma criança tentando entender pra onde estão indo os móveis que até 1 hora atrás conformava o que ela chamava de casa. Ela se debruça na janela e vê homens vestidos de azul levando o sofá, a geladeira e outras memórias transportáveis pro caminhão baú.
Tento entender o que aquela cena significa pra ela mas não consigo. Saio da ocupação e converso com outrxs moradorxs, desta vez adultos, que estão revoltados e angustiados. Pra onde ir? Por que eles têm que sair? O que fazer?
Todos têm manifestações físicas da angústia: pra uns a pressão sobe, as pernas bambeiam, a boca seca. Outros emudecem e ficam com o olhar distante tentando encontrar uma solução em meio ao caos.
Eu converso com a oficial de justiça que executa a reintegração. Ela me diz que cumpre ordens. As casas devem sair para dar lugar a um hospital ainda sem projeto aprovado. O hospital é uma ideia, as casas eram fatos. Fatos supostamente amparados pela legislação municipal. Ali o Plano Diretor definiu como uma Zona Especial de Interesse Social, uma ZEIS, como dizemos os urbanistas. Um local onde a prioridade é produzir, manter e/ou regularizar moradias populares. Mas a justiça brasileira, seletivia, patrimonialista e elitista, preferiru não aplicar esta lei municipal.
Tão pouco a Lei Federal que diz que, quando se demarca uma ZEIS, é preciso formar um conselho gestor com moradores, entidades, comerciantes locais e poder público para, juntos, definir os projetos para a área. Nenhuma dessas decisões passou pelo conselho, simplesmente porque ele não existia. Ele foi formado às pressas, num final de semana, quando algumas reintegrações já estavam marcadas para segunda-feira.
Eu fui um dos conselheiros eleitos e nós nem chegamos a efetivamente tomar posse e debater o que poderia ser feito. Desde a eleição, nossa única atuação tem sido a de um apoio extra-oficial às famílias que estão sendo removidas, muitas delas sem o devido cadastramento do poder público.
Somente com este cadastro elas podem receber a única alternativa oferecida pelo governo: uma bolsa aluguel de 400 reais por mês e que sequer paga um cômodo nas pensões vizinhas.
Algumas famílias foram abrigadas por parentes e amigos. Outras não encontram alternativas e ficaram com as caixas encostadas nas paredes externas daquilo que antes chamavam de casa. Tiveram de fazer a calçada de morada. Uma calçada suja, mais suja do que o comum, porque por ali também acontece o fluxo da famosa e estigmatizada cracolândia. A poucos metros dali, o Governo do Estado e a Prefeitura de São Paulo, junto à iniciativa privada, erguem torres habitacionais. Nenhuma unidade será destinada às famílias removidas.
Não precisava ser assim. Junto ao Fórum Mundaréu da Luz, um grupo formado por diversas entidades, moradores e comerciantes, desenhamos uma proposta que articula uma política pública diversificada e inclusiva com desenho de projeto cuidadoso e ancorado nas dinâmicas locais. Tudo isso com custos estimados e fontes de recursos mapeados.
A ideia central desta proposta é o conceito chave a chave. Nenhuma família será removida enquanto não houver uma solução definitiva pra ela no mesmo bairro, ou seja, uma outra moradia adequada à capacidade de pagamento e com tamanho e programa compatível às suas necessidades.
Um desejo possível, concretamente possível, mas que beira ao utópico quando confrontada ao aparelhamento do Estado aos interesses antidemocráticos e excludentes que têm recrudescido as ações violentas, sobretudo às famílias mais vulneráveis.
Além de mim, havia o pessoal da Defensoria Pública, do Gaspar Garcia, e outros membros do Mundaréu da Luz tentando dar algum suporte e segurança para aquelas pessoas que, numa questão de minutos, tornaram-se ainda mais fragilizadas.
Para nós que lutamos pelos Direitos Humanos, pelo direito das pessoas existirem com alguma dignidade nesta sociedade, está claro que a tarefa pressupõe a colaboração mútua e contínua dos diversos atores e saberes. Ainda mais agora que estamos vendo ruir o nosso já fragilíssimo Estado Democrático de Direito.
A democracia é uma luta diária da qual nós jamais abriremos mão. Seguimos!”
Texto e fotos: Felipe Moreira, arquiteto e urbanista, integrante da equipe Urbanismo do Instituto Pólis.
Confira também:
Infográfico do Fórum Aberto Mundaréu da Luz mostra para onde foram as famílias removidas da quadra 36 da Cracolândia. Foram apenas obtidas informações do destino da metade das pessoas. Percebe-se a manutenção da situação de precariedade, tanto no centro da cidade como nas bordas da Região Metropolitana.
Confira Infográfico do Fórum Aberto Mundaréu da Luz

Militar mostra com toda crueza até onde a mão dura do Estado pode ir contra os mais pobres, contra aqueles e aquelas que lutam por um teto para morar”, afirma. A Tropa de Choque da PM-SP utilizou aparato de guerra para realizar a reintegração, contra os moradores.